‘’…. o vídeo ou a fotografia … são um recorte da realidade. Você tem todo este universo e está escolhendo pegar isso ai, você tem que tomar uma decisão. Por alguma razão você está pegando isso aqui e não isso. Eu acho muito interessante…você tem que fazer este recorte desta realidade; tem a ver com o que você acha deste mundo. De alguma forma, você dialoga com o mundo que você vive. O que eu gosto muito da videodanca é a relação com o corpo, e não há nada mais arcano da pessoa que o corpo…’’
Tamara Cubas, São Paulo, novembro de 2008.
Escolher é um ato político! Logo, ao conceber uma obra, de comédia comercial à uma videodança, você está se posicionando politicamente. À margem ou ao centro, qual é o enquadramento da videodanca? Seu enquadramento certamente é a margem, a linguagem tem parceiros com muitos interesses políticos como blog’s, sites de relacionamento, Vimeo e o Youtube; neste último site, encontra-se todo o tipo de informação vídeográfica. Percebemos na verdade que a linguagem não está muito interessada em parcerias políticas definidas, já que é uma linguagem de miscigenação, que tem que sobreviver fazendo alianças com muitos partidos.
O vídeo é uma ferramenta muito utilizada na América Latina tendo em vista seu baixo custo e fácil acesso, o que faz refletir se a linguagem, ela própria, não se encaminha para uma escolha política. Diferente do cinema que exige uma demanda maior de tempo, de produção e muito mais dinheiro. Contudo, não se pode negar a influência do cinema na videodança, principalmente nas produções da Argentina e Uruguai, onde existe forte tradição no cinema. As composições feitas para a videodança nestes países têm estudos cinematográficos mais apurados.
No Brasil, esta produção apóia-se muito mais no discurso dos videoartistas. O início da videoarte no Brasil (1974) veio, em sua grande maioria, de artistas plásticos que buscavam inovar seus trabalhos buscando materiais mais dinâmicos e novos suportes para sua produção, rompendo assim com esquemas estéticos mercadológicos. Este caráter experimental e questionador se utilizou do corpo como o principal meio de pesquisa. Como exemplo, o vídeo de Letícia Parente, “Made in Brasil’’ (1974), aonde a artista borda escritas na sola de seu pé, fazendo-o assim um quadro. Ou em ‘’M3X3’’ (1973), de Analivia Cordeiro, bailarina, que faz uma experiência coreográfica para o vídeo ligando a dança às artes plásticas na pesquisa da relação do corpo com o espaço, concretizando formas e desenhos.
Diferente de algumas das videodanças ou cine-danças americanos e europeus, onde o corpo é apolíneo e a atmosfera proposta é onírica, na América Latina, o vídeo tem um caráter provocativo e político.
Não há nada mais autêntico que o corpo, nele é que encontramos os conflitos não só psicológicos, mas sócio-políticos e étnicos. Se ele é a questão que a videodança pode perseguir, torna-se visível qual corpo está em questão. Podemos apontar o corpo latino como um caldeirão em ebulição de informações genéticas, devido à miscigenação e colonização política e ditaduras do último século. Os corpos estão mergulhados em estado de urgência, nas metrópoles em crescimento e no caos desenfreado, em paisagens áridas ou em ambientes íntimos, o corpo fragmentado formado a partir da edição.
E hoje? Pensando e focando esta idéia (de propulsões para a criação de vídeos) para a videodança, atualmente, podemos perceber que o enfoque está na experimentação corporal mais do que um pensamento político questionador com ideais de mudança. [ver anexo 1: mapeamento de produções de videodanças no território brasileiro]. Independente do que está sendo tratado no vídeo, outra questão, é onde estão sendo vinculadas estas produções. E aí está outro ponto: onde eu opto por compartilhar meu trabalho? E então, para qual tipo de público e em quais proporções?
Copyleft: ferramenta para difusão e escolha política
Creative Commons é uma ferramenta internacional de gerenciamento de direitos autorais em um novo sistema de Copyleft, termo que se contrapõe ao Copyright, aonde todos os direitos são reservados. Neste novo gerenciamento, é defendida a idéia de alguns direitos reservados, aonde o autor da obra escolhe os símbolos de liberação de seu trabalho sob condições escolhidas por ele, permitindo assim, que seu trabalho possa ser copiado, distribuído, exibido e executado. Desta maneira, o Copyleft se torna uma ferramenta de difusão/propagação/disseminação controlada de uma obra, aonde os aderentes se tornam “cúmplices políticos” deste pensamento.
Podemos refletir que quanto maior for o alcance da obra, conseqüentemente, maior número de pessoas serão afetadas por ela, tanto para apoiar e usar como referência ou citação, ou também para questionar o meu posicionamento (da obra). Por exemplo, eu assinando minha obra em Copyleft, eu permito que outros artistas/autores possam se utilizar do meu olhar/recorte para gerar o seu. Assim, sendo a difusão algo fundamental para a construção de estéticas artísticas.
Nirvana Marinho, em seu artigo “Autoria: qual é a da dança?” questiona a partir do pensamento Copyleft, a ligação de autoria com autenticidade, originalidade, poder, posse e detenção de idéias.
“Um jeito de pensar e fazer cultura que, nas artes, ganha cada vez mais eco. Vale se informar e refletir: sua obra é right ou left?”
Neste sentido, podemos perceber uma abertura para ser interrogado o que está sendo produzido hoje em dança, ou em qualquer outra linguagem, bem como o porque. E revelando um olhar mais amplo e relacionado com fundamentos políticos, sociais e culturais que uma obra artística pode potencializar.
E desta forma, acreditamos que o sistema Copyleft é questionador, que se utiliza não da individualidade de idéias, mas busca compartilhar uma atualização e, portanto, constrói o conhecimento em conjunto a partir de obras conjugadas, sendo contemporâneo, político, estético e cultural. Um meio para a videodança infiltrar-se em diversos lugares, explodir fronteiras e conquistar um maior público.
Anexo 1. Videoadança Brasil (Vid.BR) - Mapeamento de produções de videodanças no território brasileiro.
Este são pequenos apontamentos do inicio de uma Mapeamento da Dança que vem sendo Produzida no Brasil. Um pais que Com seus 8.511.965 km2 de extensão, 26 estados e muitas diferenças econômicas.
· Norte e centro –oeste:
Na região que se encontra a capital do país , existe uma escassa produção, tendo em vista que no ano de 2006, dentro do Festival Nova Dança, foi lançado o primeiro edital de produção de videodanca que não passou de sua primeira edição apesar de contemplar três produções, ‘’Várzea’’ (SP), com concepção de Ricardo Iazzeta e Estúdio Bijari e direção de movimento de Ricardo Iazzeta; ‘’Em Outro Pé’’ (SP), com direção de Kiko Ribeiro e Dafne Michellepis; e ‘’De água nem tão doce assim’’ com direção de Shirley Farias e coreografia de Laura Virgínia.
As produções existentes são de artistas independentes como a de Christiane Frauzino, Eliane Carneiro e Laura Vírginia.
No Amazonas e Belém começam a surgir produções, o Dança em Foco- Festival Internacional de Vídeo & Dança, nas últimas edições (2008 e 2009) partiu para uma incursão pelo pais que abrangia estes estados. Fomentando a difusão não só através das mostras de vídeos como de oficinas que o festival oferece que é de imensa contribuição para a produção e reflexão da linguagem.
· Nordeste:
A Universidade Federal da Bahia te o Curso de dança mais antigo do país em Salvador um centro de estudos e pesquisa da dança em suas várias vertentes e tecnologia de grande importância nacional. Onde Profa. Dra. Ivani Santana, coordena o Mapad2 uma plataforma virtual, um lugar de troca entre artistas e pesquisadores da dança e da Performance com mediação tecnológica (http://www.mapad2.ufba.br).
Em Pernambuco existe uma tradição em produção do audiovisual e artes plásticas ligada à videoarte. A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, abre editais para fomentar a produção do audiovisual. A produção da videodança está relacionada a produtores de audiovisual que se interessam pela dança e convidam a fazer produções, há também dançarinos que se interessam na interface dança e tecnologia como Helder Vasconcelos, que inicialmente começou seu envolvimento com música e dança popular do Cavalo Marinho.
A Associação Vídeo Brasil, que tem como curadora Solange Farkas e é dirigida por Ana Pato, é responsável pela difusão da produção do videoarte em todo o país com o programa Itinerâncias Videobrasil, Encontros SESC Videobrasil e o Festival Internacional de Arte Eletrônica. A organização vem contribuindo com a difusão, pesquisa e fomento da produção. Tem se mostrado uma importante organização para com vinculo com a America Latina.
· Sudeste:
Na região aonde se encontra a maior renda do Brasil, está concentrada a maior parte da produção de videodança nacional. Podemos salientar que no Rio de Janeiro e em São Paulo se encontra a maior rede de televisão do país e a produção do cinema é crescente, assim como produtoras independentes, como o exemplo da MTV Brasil, em são Paulo.
Em São Paulo, a lei de Fomento à dança contribui para que algumas companhias interessadas na pesquisa com o vídeo, seja em cena ou na produção de videodanças tenham recursos para produzi-los. Exemplo é a Cia. Vitrola Quântica e Núcleo Artérias. Contudo, muitos dançarinos se associam a videoartistas para suas produções, como exemplo, Kika Nicollela, que já produziu vídeos com Letícia Sekito e Lucina Gandolfo, seu interesse é sobre tudo sobre a experimentação que a linguagem oferece ao videortista . Outro Exemplo é André Martinez, que produz seus vídeos com ferramentas consideradas de baixa tecnologia, como uma câmera shot e edita no movie maker.
No Rio de Janeiro a produção é forte, sobretudo onde encontramos uma tradição na dança; a primeira Escola de Bailados começou no Rio e onde há o maior número de escolas e faculdades na área. As companhias resistem a uma crise financeira que persiste, porém há um movimento de discussão e pesquisa entorno da dança contemporânea que fortalece a classe. A Faculdade Angel Vianna, dirigida pela Profa. Dra Angel Vianna, implantou na pós- Graduação o curso Estética do Movimento: Dança, Videodança e Multimídias coordenado por Paulo Caldas, um dos criadores do Dança em Foco- festival internacional de vídeo & dança, com sede no Rio de janeiro.
Em Minas Gerais, a produção de artes plásticas é que vai influenciar a produção da videodança. Como exemplo, o artista plástico Marcelo Kraiser, que começa trabalhar com as companhias e bailarinos independentes de Belo Horizonte: Paola Rettore, Dudude Herrmann, Izabel Stewart, Rodrigo Quik e Cia Quik. Algumas companhias Independentes também Começam a produzir: Hibridus, Coletivo Molin TL, Flux Cia. De Dança.
· Sul:
Christiane Wosniak publicou ‘’Dança, Cine-dança, Vídeo-dança, Ciber-dança.’’ sua tese de Doutorado na Universidade do Paraná, uma das únicas publicações ate agora saídas do meio acadêmico.
Sarah ferreira e Elisa S, Bailarina formando-se pela Universidade de Santa Catarina tem mantido uma produção artística independente em Florianópolis (SC).
Diego Mac tem sua produção vídeo liga a experimentações como ‘’Pas de Corn ’’ uma videodança onde os bailarinos são pipocas.
Bibliografia:
Made in Brasil: Três décadas do vídeo brasileiro org. Arlindo Machado.
São Paulo, Iluminuras, Itaú Cultural, Ministério da Cultura, 2007.
Festival Internacional de Arte Eletrônica Videobrasil (2005, São Paulo, SP).
Catalogo / coord. Solange Oliveira Farkas. São Paulo, Associação Cultural Videobrasil, 2005.
Goldberg, RoseLee. A arte da performance: do futurismo ao presente / RoseLee Goldberg; trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
Banes, Sally. Greenwich village 1963: avant-garde, performance e o corpo efervescente. Rio de Janeiro, Rocco, 1999.
Dança em foco, volume um: Dança e Tecnologia
Dança em foco, volume dois: Videodança
Santana, Ivani, Dança na Cultura Digital, Salvador:EDUFBA, 2006.
Nota-Ana: uma notacao-trajetoria dos movimentos do corpo humano. São Paulo, Annablume , Fapesp, 2000.
Cartografia - Rumos Itaú Cultural Dança 2006/ 2008.
Corpo - Itaú cultural. Catalogo da Exposição.
Quinto festival internacional de Vídeodanza Buenos Aires 1999. Catalogo do Festival.
‘’Dance Screen Câmera Choreography’’ Revista- Aktuell Ballet Tanz International de junho de 1999.
Wosniak,Cristiane. ‘’ Dança, cine-dança, vídeo-dança,ciber-dança …’’ Tese de Doutorado Universidade do Paraná. 2008
Sites:
http://www.youtube.com
http://www.itaucultural.org.br
www.dancaemfoco.com.br
http://www.culturaemercado.com.br
http://www.overmundo.com.br
http://www.videodanzaba.com.ar
http://www.dancecom.com.br
http://www.dancarecife.net
http://www.merce.org/
http://videarte.wordpress.com/video-arte
http://www.sescsp.org.br/sesc/videobrasil/site/home/home.asp
http://www.cibercultura.org.br/tikiwiki/tiki-index
http://www.poeticatecnologica.ufba.br/
http://www.corpoaberto.art.br/equipe.htm
http://sotao73.blogspot.com/
http://www.fabricademovimentos.pt/abertura.html
http://www.perrorabioso.com/
http://videodanzaforolatinoamericano.blogspot.com/ (http://www.dospesos.org/videodanza/category/chile/
http://movetheframe.wordpress.com/umove-festival/ http://www.dancasemsombra.blogspot.com/
http://www.mapad2.ufba.br
Tamara Cubas, Trecho de entrevista onde a pesquisadora dialoga sobre a videodança com uma câmera na mão.