coisaPÚBLICA

25 de novembro de 2009

Registro de Dança, Documentário de dança, Videodança e o que a dança permite em um acervo.

Arquivado em: Artigos — admin @ 17:21

Record Dance, Dance Documentary, Videodance and that the dance permit in Collection.

 

Rita Tatiana Cavassana

Acervo Mariposa

rita@acervomairosa.com.br

Resumo:

O Acervo Mariposa ocupa atualmente um lugar de reflexão da prática de gestão cultural no Brasil, uma vez que nasceu da preocupação de como nos apropriamos da história da dança através dos vídeos registros ou vídeosdança, ou mesmo documentários, entrevistas e toda matéria em imagem de dança que permita rastrear sua própria identidade ao longo do tempo. Como isso se dá, como isso pode ser acessado, autorizado e difundido entre estudantes, pesquisadores e artistas vem sendo a principal tônica do projeto cultural, sem finalidade lucrativa que foi criado em 2006 e teve em 2008 patrocínio via lei Rouanet para seu primeiro ano de execução. Diante disso, a apresentação do Acervo Mariposa traz um debate atual acerca de vídeos de dança e sua função na fruição, aprendizado e debate cultural no qual a dança ocupa sua função social. Como um acervo sai da parede, como ações culturais interligam público e obra, como a linguagem e os artistas se refazem a partir da difusão ampla de rastros de seu trabalho são tópicos explorados em nossa prática e aqui expostos para o encontro científico.

 

Palavras chaves: acervo de dança, vídeo, ação cultural

 

The Mariposa Collection currently holds a place of reflection of the practice of cultural management in Brazil, as was the concern of how we take the history of dance through dance  of records or vídeosdança or even documentaries, interviews and all matter in the image of dance it possible to trace their own identity over time. How does it do, how it can be accessed, authorized and widespread among students, researchers and artists has been the most important elements of the cultural project, non-profit that was created in 2006, and was sponsored in 2008 by Lei Rouanet for its first year of implementation. In this light, the presentation of the Mariposa Collection brings a current discuss about videos of dance and its role in the enjoyment, learning and cultural discuss in which the dance takes its social function. As a collection out of the wall, and cultural activities and interconnected public works, such as language and artists to remake from the widespread diffusion of traces of their work are topics explored in our practice .

Key words: collection of dance, video, cultural action

 



1.Da apropriação da dança através dos vídeos  de registros.

 

Como guardar e preservar algo efêmero, um acontecimento para poucas pessoas e que dura minutos, segundos ou centésimos, como a arte? Certamente um registro não vai tomar o lugar da experiência do momento. No caso da dança as afetividades contidas nos movimentos que o dançarino deixou rastro em cima do palco terão outros sentidos. O que o documento de audiovisual pode fazer é, abrir uma cicatriz no tempo entre o passado e o futuro, suspender o presente tentando reavivar aquilo já ocorrido.

Como podemos então nos utilizar e preservar de forma viva a dança? Encontrada hoje nas mídias DVD, que daqui a pouco serão substituídas por um outro aparato digital. Ou até na internet onde já podemos encontrar muitos documentos históricos.

Neste mundo provisório, como fala Christine Greiner em seu artigo ’’O registro da dança como o pensamento que dança’’ buscar estabilidade em algo efêmero e recolher do documento algo que possa aproximar o que é a dança, é uma tarefa que vai contra a corrente. Mas como podemos estudar e aproximar mais o público da dança, nestes dias de editais de circulação tão escassos, com a imensidão territorial que temos sem este recurso do registro e de mídias digitais?

Formar um público e instruir a partir do registro em vídeo é um tanto desafiador. Sendo que cada um tem um olhar sobre o mundo, e o que você vê no registro já não é a dança, mas rastros do que já foi. Os cuidados que se deve tomar deverão ser redobrados, para ao invés de aproximar não distanciar o público da obra e da linguagem. Não basta só o documento estar na prateleira mas, informar sobre a obra, o artista e tudo o que envolve o processo se torna necessário, um registro em vídeo é um produto histórico não a peça em si.  Para a arte feita ao vivo que não é pensada para câmera, (diferente da videodança ou cinedança) a troca se faz necessária, mesmo que por intermédio de outro profissional, seja ele teórico, professor ou curador se faz essencial, para que aconteça uma troca. Sobre o processo há algo pro trás que não é revelado, que só no momento do encontro do palco se faz visível e o registro no vídeo não capta.

A qualidade do registro e os cuidados com o documento fazem a diferença para que ele ganhe vida e a obra possa ser reproduzida com um pouco mais de fidelidade. Mas não basta só isso, o como você exibe e o quanto contaminado de informação está o olhar de quem assiste. Um exemplo: Quando entrei na faculdade em uma aula de teoria do primeiro ano, assisti o registro de ‘’ Formas breves ‘’ de Lia Rodrigues. Depois de um tempo vi a obra ao vivo no espaço SESC em Copacabana. Não tinha feito ligação com o que tinha assistido com o vídeo. Eu havia esquecido completamente do registro em vídeo. Anos depois em meu último ano da faculdade escolhi falar da coreógrafa Lia Rodrigues em um trabalho e o que volto a ver? Sim o mesmo registro de ‘’ Formas Breves’’, e me lembrei que já tinha visto o registro, pois identifiquei a imagem do vídeo pela luz, depois de um tempo lembro que havia assistido ao vivo! Sim que falta de memória! Mas rever me fez identificar imagens que demoraram a ficar claras e como outro olhar, ali já estava um outro ser que resgatou imagens que estavam dormindo. Mas as experiências podem modificar o meu olhar sobre as ‘’coisas’’, tudo esta em transformação, mesmo aquele registro na prateleira.

Se há algum tempo o vídeo de registro era usado para o bailarino estudar os passos e as coreografias de balé, hoje é um instrumento de trabalho importante para que os bailarinos, coreógrafos e pesquisadores se utilizem deste documento para refletir sobre o que a dança conquistou e que pensamento ela vem a construir.

 

2.Como isso se dá, como isso pode ser acessado, autorizado e difundido.

 

‘’Os museus surgem para preservar e cultuar a obra de arte’’                         (Teixeira,1989, pg37) . No museu a obra esta para ser admirada, sem poder ser questionada, sem tirá-la de sua ‘’casa de vidro’’, ela a principio se torna sublime e imponente. A arte produzida por e para os deuses, aos poucos vai se tornando humanizada, a sociedade adquire a possibilidade de compartilhar e refletir sobre a obra a partir de seu repertório e visão de mundo. Hoje, estes espaços de preservação têm como tarefa manter ações culturais e educativas para que o conhecimento torne-se algo acessível.

‘’O que um acervo em dança pode promover a respeito de informações?
A existência física de um acervo é o suficiente para manter vivo um material?
É possível transformar informações armazenadas em conhecimento?
Se já não podemos mais olhar para a memória como simplesmente um conjunto de gavetas onde são guardadas informações, acumulando o conhecimento, algo nos diz que um acervo em dança também não pode ser só isso. Optamos então, por ao invés de acúmulo, uma rede de conexão; ao invés de informações somadas, contato umas com as outras, ganhando novas possibilidades de existência. Fazer da história um objeto presente. Construir um patrimônio coletivo e compartilhado.’’[1]

         O Acervo Mariposa é uma videoteca especializada em dança, sem finalidade lucrativa, que gerencia o acesso gratuito de vídeos digitalizados de dança para o público em geral, localizado na cidade de São Paulo, Brasil. Hoje residente nas Casa das Caldeiras onde faz parte de um projeto de residência artística. 

Partindo da premissa de que dança é produção de conhecimento e que um vídeo de dança pode gerar conhecimento, uma pergunta nos perseguia: Como disponibilizar o trabalho ao ‘’mercado de arte’’ e criar este espaço de troca em lugares que não tem acesso ao ‘’mercado’’? Sendo a obra constituída de dois valores, o econômico e o patrimonial. Como possibilitar o acesso a vídeos de dança para um maior número de pessoas e permitir que o mesmo chegue a muitos lugares?

Hoje o compartilhamento de informações (filmes, vídeos, música, livros etc) na rede mundial de computadores foge do controle dos artistas, produtores e detentores dos direitos autorais. Utilizando o copyright a obra é propriedade de valor econômico e artístico gerenciado por uma ‘’pessoa’’, que passa a ter todos o direitos sobre a obra, assim alguém sempre perde o poder de escolher como o mercado vai receber sua obra. Passando por questões econômicas e sociais, a sua circulação e difusão se torna algo difícil de administrar, dando espaço maior à pirataria.

Sendo o copyright uma ferramenta de direitos autorais, muito questionada principalmente pela internet. Qual seria a alternativa de um acervo sem finalidades lucrativas e com objetivo de difundir o conhecimento produzido pela dança, para retirar das prateleiras e circular com o conjunto de obras que nele existe?

 A alternativa que tivemos foi: Copyleft.

O Acervo decidiu então disponibilizar o material dentro da licença Creative Commons, que é uma ferramenta internacional de licenciamento de direitos autorais, onde o próprio autor decide como sua obra pode ser utilizada por terceiros e escolhe quais licenças melhor se adaptam ao seu trabalho, sendo que em todas elas, a propriedade intelectual do autor (autoria) é sempre preservada. “Ao invés de todos os direitos reservados, alguns direitos reservados”.

O Sistema de gerenciamentos de direito autoral do Creative Commons permite criar redes de trocas de informação, seja em um banco de dados interno de acervos ou compartilhamento de informação virtual entre artista e público. Os direitos autorais sobre a obra serão escolhidos pelos criadores a partir do momento em que ele adere a um tipo de selagem. Em quais mídias será vinculada, que tipo de comercialização, estará em suas mão decidir o futuro de sua obra.

O artista está conectado não só com seu trabalho e com o ‘’mercado’’, sabe como e onde quer que sua obra circule, e também abre espaços públicos como  instituições privadas para seu trabalho. É consciente de que seu trabalho junto ao ‘’mercado’’ é formador de público e conhecimento. O vídeo dentro do Acervo Mariposa, uma vez doado pelo artista e assinado o termo de autorização (Copyleft), que tem como escolha as licenças: atribuição da autoria protegendo os direitos autorais, uso não comercial, podemos executar a obra mas sem finalidade comerciais, Vedada a Criação de obras derivadas. Esta escolha faz com que o uso e acesso à videoteca se torne dinâmico. 

 

 

3. Como o Acervo Mariposa articula seu vôo.

 

O Acervo Mariposa não apenas preserva em sua prateleira as obras, como procura também movimentar discussões e pensamentos ao redor da dança, através de ações culturais e educativas fomentando discussões e formando um olhar para dança.

Tem como atividades parcerias com festivais (Mafs), levando uma pequena parte do acervo para dentro dos festivais, com exibições de vídeos e discussões, sendo uma maneira de aproximar os artista e recolher vídeos para o catalogo. O Sobredança que consiste em parcerias com faculdades e escolas para utilização do material previamente agendado, de acordo com as necessidades das aulas. É possível estender esta parceria para faculdades em todo o país.

É um propositor de novos olhares sobre a produção de dança no país, à medida que, não só difunde mas, propõe questões para artistas que participam de seus eventos (VHS - Vídeo Homo Sapiens), fomentando um espaço de trocas, onde produzimos exposições reunindo vídeos, debates, exibições, instalações. Os eventos são gratuitos e abertos ao público. Neste um ano de projeto o Acervo realizou ao todo 10 VHS e pôde atingir do público infantil (realizando o Mini VHS) ao público especializado, ao discutir sobre um novo olhar para a produção de vídeo e corpo, discussão apontada pelo VHS vídeo oque?. Neste eventos podemos descobrir mais sobre o funcionamento e sobre como os vídeos se tornam ferramentas importantes para refletir o conhecimento produzido pela dança.

Gostaria de destacar outra Atividade: a Mostra Lanterninha de Videodança parceria do Acervo com a Galeria Olido, que está em sua segunda edição e é realizada em um cinema antigo de 236 lugares.  Tem como foco a formação de público e abrir espaço para a produção de videodança nacional que cresce a cada dia e ainda conta com poucos lugares de exibição. 

Por ultimo, a pesquisa Vid.BR. (Videodança.Brasil) que pretende mapear quem produz videodança no Brasil, além de fomentar a discussão entorno do vídeo e da dança. Tem um caráter independente e por estar dentro de um acervo pode contar com parcerias de festivais e artistas.  Com estas parcerias como: Festival internacional de videodança do Recife-Play Rec e o Núcleo de dança e o cine Olido para além de fomentar a discussão, esta em campo junto discussões e pesquisadores e artista acompanhando a produção e o crescimento da linguagem de perto.

Um conjunto de ações que torna o acervo dinâmico e propositor para o artista e público. Formando e refletindo sobre o olhar de quem faz e é espectador da dança, construindo redes de informações com outras instituições, com os artistas e até mesmo outras linguagens.

 

 

 

 

 

Referências Bibliográficas:

Antonelli, Bruna e Dias, Cuca. Sobre memórias e obsessões. Revista Danza Cuerpo e Obsesión, México, No. 12. junho de 2009.

Coelho, Teixeira. O que é Ação Cultural. São Paulo: Editora Brasiliense, 2008. Coleção Primeiro Passos.

Greiner, Christine ‘’ O registro da dança como pensamento que dança’’. Revista D’ART No.  Especial Novembro de 2002.

Joost Smiers e Maríeke van Schijndel. Imagine o mundo sem Copyright. http://www.culturaemercado.com.br/2007/09/25/imagine-um-mundo-sem-copyright/ 6 abril 2006; consultado em 2 de outubro de 2009.

http://www.creativecommons.org.br/, consultado em 13 de Outubro de 2009.



 

 

Rita Tatiana Cavassana é atriz e bailarina. Atualmente é Gestora Cultural do Acervo Mariposa, onde realiza a pesquisa Vid.BR. Graduou-se em Comunicação em Artes do Corpo -PUC-SP 2007. Sua pesquisa artística  baseia-se na relação da Dança e outras linguagens como o Vídeo e a Performance. É integrante do Coletivo in Trânsitto, onde pesquisa intervenção Urbana e Performance


[1] Antonelli, Bruna e Dias, Cuca. Sobre memórias e obsessões. Revista Danza Cuerpo e Obsesión, México, No. 12. junho de 2009.

 

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